14.2.07

António Maga



Há nesta noite um silêncio terno, um quase pudor sussurado, discreto perante o meu pranto gemido.

Há um gotejar marulhado de um chuva esparsa, perfumando a madrugada de verde…aquele verde que nos invade pelas narinas e nos dá a nostalgia da terra molhada debaixo dos pés descalços…

Oh noite! Lava os meus olhos cansados com as tuas trevas indecisas! Que eu respire vivo o teu ar-água, sentindo-o vivo, vida! Que as lágrimas minhas se misturem com as tuas, e me sequem a angustia, deixando a emoção primeira de ser criança, novamente criança, a criança livre que não sabe a prisão, a prisão que se dissolve em orvalho, assim como a lua se dissolve numa mancha de leite de fêmea-mãe, assim com a morte se desvanece nesta noite de redenção…


Nocturno – prosa poética de O Livro do Gelo, Editorial 100 Lda 2003
imagem:António Pinto da Silva

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