7.5.08

Manuel Portela



O dia em que o EU me deixou


foi um dia que não me é fácil recordar. em especial por causa do comportamento inesperado do eu nessa tarde terrível. já há alguns anos que não nos dávamos bem. andávamos sempre magoados um com o outro. mas nesse dia foi demais. o eu disse-me que já estava farto de todas as frases em que o colocava. quando pensava, quando escrevia, quando falava. obrigava-o a fazer o que ele não queria fazer de modo algum. por exemplo, projectar-se num ponto de vista que não era o dele. viver uma dor ou uma alegria que não eram as suas. isso, atirou-me ele à cara, dava à sua existência uma intensidade difícil de suportar. disse-lhe que não percebia o que é que ele queria dizer com isso. e ele continuou, exaltado: como é que é possível viver com a consciência de que sou uma forma a tentar comunicar? não me deixas tranquilo a teu lado. dizes que posso contar contigo, mas nunca sei como nem quando. abandonas-me ao fluxo contínuo da tua imaginação. transformas-me constantemente os desejos. eu queria uma vida mais sólida, com predicados definidos. um ponto de onde te avistasse sempre do mesmo ângulo. já não aguento mais viver contigo . esta foi a última frase que lhe ouvi antes de sair porta fora. não sabia o que pensar ou o que sentir nesse momento. ainda não sei. e é a primeira vez que falo disto sem chorar desde que o eu me deixou.
Imagem: Rossy Topalova

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