28.2.09

Paulo Rodrigues Ferreira



Pegou no comando da televisão. Nada. Chuva. Na cozinha, de frigorifico aberto, reparou que não tinha comida para encher um estômago que já há várias horas estava em sinal de alerta. Deitou-se. A cama, outrora ocupada por fortes tempestades nocturnas, parecia um deserto deitado no meio da cama, sentia que poderia percorrer um quilómetro para a esquerda e outro para a direita. Na rua, não havia ninguém que lhe interessasse. Não tinha família, não tinha mulher, não tinha filhos, não tinha amigos.Nos últimos tempos, começara a sentir um forte aperto no estômago. Não um daqueles apertos que indiciam um novo amor. Um aperto de pânico, de desespero, de querer morrer. Se aquela vida pequena, vazia e desinteressante, igual a tantas outras, nunca lhe dissera nada, naquele momento, menos lhe dizia. Tentou ligar o rádio. Zero. Procurou uma tesoura. Cortou as unhas dos pés. Tomou banho. Queria ser um suicida higiénico.


Paulo Rodrigues Ferreira



Um deserto no deserto em Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa
[Selecção e organização de Rui Costa e André Sebastião.]
[Prefácio de Henrique Fialho]

Imagem: Mariah

2 comentários:

Paulo Rodrigues Ferreira disse...

paulo e não pedro

nadir disse...

as minhas desculpas pelo engano


margarida