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3.6.08

António Quadros (1923 - 1993)



Ensaísta, ficcionista e poeta.Ensaísta e pensador integrado no grupo da chamada filosofia portuguesa, António Quadros é autor de uma vasta obra que inclui volumes de teoria da cultura, história e filosofia políticas, ensaios de estética e crítica literária, monografias, colectâneas de poesia, títulos de ficção, crónica, relatos de viagem, etc., além de ter dirigido a colecção «Biblioteca Breve» (ICALP) e organizado edições das obras completas de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Camilo Pessanha, cujas introduções e notas são preciosos e incontornáveis auxiliares para o estudo daqueles autores.Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Lisboa (1948), foi, em 1969, um dos fundadores do Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing, vulgo IADE, escola superior de que foi presidente e professor, funções que exerceu com largo espírito liberal.Com a publicação de Modernos de Ontem e de Hoje (1947), deu início a uma coerente bibliografia de índole predominantemente ensaística, balizada por alguns títulos de referência, de que se destacam A Teoria da História em Portugal (2 vols., 1967-68), Portugal, Razão e Mistério (2 vols., 1986-87) e Estruturas Simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa (1992).


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25.1.07

António Quadros




requiem para um amigo que vai morrer, que já morreu

Movem-se os outros
À tua volta
Falam, suspiram,
Pensam em ti.
Olham-te e choram
Lembrando os tempos
Em que brincavas
No teu jardim
A vida é curta,
Curta demais.
Foge a alegria,
Foge a tristeza,
E fica apenas
Um quarto escuro
Um corpo imóvel
E uma saudade.
Olhos fechados,
Olhos de pedra,
És uma coisa
Não és mais nada.
Nem mesmo um beijo
Eles te dão.
Nem uma carícia
Na tua face.
Caem as lágrimas
Mas é mentira.
Tu já não és,
Só eles são.
Fazem projectos
Pensam em si,
Sob a trizteza
Luz e ambição.
Há já desejo
No olhar daquele.
Há já ternura,
Na alma da mãe.
Vem a vaidade,
Surge a inveja,
Mas a alegria
Submerge tudo.
E eles já sonham
Com a luz do sol,
E eles já sonham
Voltar a rir.
A vida é curta
Curta demais.
Vamos viver
Que o tempo passa.
Vais a enterrar.
Mas há as flores.
Desces à campa
E as aves cantam.
Há uma angústia,
Mas é o medo
Mas é a piedade
Da nossa dor.
E a terra cobre
O ser que foste,
E uma oração
Sobe para os céus.
Salva-o Meu Deus,
Ele era bom...
Só nesse instante,
Foste chorado:
Logo a seguir
Há que viver.
Repousa em paz
Não fazes falta.

Passaram anos
E a tua imagem
Assiste à vida...
Numa moldura.
E a tua imagem
Já nem sequer
Inspira aos teus
Uma lembrança.
Serves apenas
Para enfeitar
Uma saleta.
Não tenhas pena,
Pois todos morrem,
Pois todos passam,
E a morte ri
A par da vida


de Viagem Desconhecida, 1952
Imagem: Mitch Barrett