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21.6.12

Filipa Leal





Na frágil timidez de aves de papel,
balouçando, morrendo a cada queda,
porque houve asas enrugadas,
e um desespero de salitre e ervas aromáticas.
E rasgámos as palavras,
arquivámos o voo como se crescêssemos,
ou tivesse amanhecido devagar.



de Talvez os Lírios Compreendam, Cadernos do Campo Alegre, 2004
Imagem: Barbara Cole

4.11.11

Filipa Leal




Eva conhecia o medo inicial, não da solidão, não do pecado, mas de alguma inexistência. Trazia consigo a sensação da inexistência do mundo. Não sabia de onde chegara, e talvez por isso lhe parecesse errado partir.
ouviu: - Se partires, não regressarás a lugar algum. Nunca se regressa partindo.

***

Talvez Eva não soubesse falar, ainda ou já. Mas pensava, como todos os homens, durante as horas em que não dormia. Como desconhecia as palavras exactas através das quais se pensa, e desconhecia as imagens do mundo por fora da sala, era essencialmente naquela brancura que pensava.
Ouviu: - Não precisarás de saber dizer palavras. Para lá deste lugar, ninguém diz as palavras - que se pensam.


de A Inexistência de Eva,Deriva
Imagem:
Anakin Sk

4.6.09

Filipa Leal



Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.


escrevia à mão a cidade de Talvez os Lírios Compreendam, Cadernos do Campo Alegre, 2004.
Imagem: Marco Farias