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12.6.12

José Rui Teixeira





havia uma menina sentada
junto a uma janela

ela vestia uma velha camisa de dormir
larga
e tinha cabelos castanhos lisos
longos

tinha uma caixa de plástico vermelha
no colo
e olhava o horizonte cinzento
ao longe

talvez vivesse numa ilha
e talvez brincasse junto ao mar
nas tardes de verão

ela estava sentada
não sei bem se num banquinho de madeira
ou se num rochedo do tamanho do mundo

às vezes
os seus olhos pousavam suavemente
na caixa vermelha
e os seus pequenos dedos
imprimiam na superfície do plástico
antigas histórias
de gente que não mais voltara do mar

a casa era do tamanho
de uma janela que dá para o mundo

e a madeira cheirava a madeira
e alguma coisa nela me dizia
que outrora fora barcos

nenhum entardecer
se assemelhava ao que habitava
aquela janela

e a menina sabia-o
não sei bem como

os seus olhos cinzentos
olhavam o horizonte
com a paciência
de quem olha os horizontes

e por vezes
esticava o pescoço
para ver mais longe

ela descobrira sozinha
o significado da palavra longe

o tempo era
verdadeiramente
algo indistinto

e os cabelos
acariciados pela tempestade
gritavam
aos olhos mais atentos
a palavra eternidade

sempre que abria as mãos
caíam ao chão
punhados de terra
ainda misturada com raízes

e no seu colo pousava
aquela caixa vermelha de plástico liso
como uma mancha de sangue
no branco sujo
da camisa de dormir

de vez em quando
cantava
melodias tristes
que ela ouvira
certamente
da boca dos mortos
que escolheram aquele lugar
para olhar o horizonte

um dia
alguém vindo do mar
dissera-lhe ao ouvido
a palavra infinito
e ela rira

ria sempre
que alguém dizia
infinito

desde então
passava noites inteiras
na sua janela

nenhuma palavra
se lhe ouvia
mas ria-se às vezes
como se riem as crianças

há quem diga
que lhe morrera o mundo
e que perdera o tempo
numa noite de tempestade

outros dizem que aprendeu a falar com os mortos
e que passeia no fundo dos mares

que chama pelo respectivo nome cada estrela
e que tem uma música para cada pôr-do-sol

que guarda na pequena caixa de plástico
todos os sonhos dos homens

eu sei que ela tem uma janela nos olhos

imagino que corra na praia
e que caminhe sem dificuldades
na estrada do horizonte

julgo que é sozinha desde sempre
e que não gosta de andar com guarda-chuva

provavelmente
conhece mesmo o fundo dos mares

e nem sequer me custa acreditar que
se pudesse ver o que esconde
aquela caixa de plástico
ela me pareceria vazia


de Quando o Verão Acabar, Quasi Edições, 2002
Imagem: ineedchemicalx - Deviantart

4.6.09

José Rui Teixeira



dá-me um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso
do tamanho de uma casa


de o fogo e outros utensílios da luz, Quasi edições, 2004
Imagem: Dunjic Vladimir

14.5.07

José Rui Teixeira



Corro em círculos porque a noite
é funda como o desejo. Eu dormindo
em posição fetal sou um lugar escuro,
transfusão de vagas monstruosidades
como memórias da infância ou melopeias
ou âncoras de barcos naufragados.
Mialgia de ser eu dormindo em posição fetal
ou alguém que acreditasse que o universo
é uma caixa de brinquedos há muito esquecida
no silêncio iluminado de uma casa inabitada.


Melopeia, Cosmorama, 2004.

imagem:Misha Gordin

12.5.06

José Rui Teixeira



trago dentro de mim um mar imenso
feito de vagas tristes
e sonhos vagos

o horizonte é uma manhã
que eu quis minha para ser eu

e para porto de abrigo escolhi uma tarde
que soubesses chorar a morte do sol



de Quando o Verão Acabar Vila Nova de Famalicão, Quasi edições 2002
imagem:Piotr Zastróżny