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15.12.07
14.5.07
Nuno Júdice

« - Por que me escreves? Que inspiração alheia
te suja os dedos de versos, se os teu lábios
não pronunciaram nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas estagnadas -
charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória.
Acorda-me, Fala-me em «Poesia Reunida» 1967-2000, prefácio de Teresa Almeida, D. Quixote
imagem:Geoffroy Demarquet
te suja os dedos de versos, se os teu lábios
não pronunciaram nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas estagnadas -
charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória.
Acorda-me, Fala-me em «Poesia Reunida» 1967-2000, prefácio de Teresa Almeida, D. Quixote
imagem:Geoffroy Demarquet
15.4.07
Nuno Júdice

Quero chegar à ideia, tocar o seu corpo
abstracto, e sentir na sua pele as palavras que compõem
a frase musical do espírito. Para isso, o meu olhar
procura o campo das sensações, percorre-o com
a lâmina acerada da sua luz, e recorta de entre
o magma dos sentimentos a figura exacta
do amor. Tenho de encontrar a pura expressão
do som, o mais alto acorde de entre os que envolvem
a sua voz, e pedir aos deuses que me emprestem
um vocabulário de nuvens, para que a sua névoa
desça ao fundo dos meus olhos, e obscureça
a linha da razão. A cegueira da alma restituir-me-á
a visão que só os dedos pressentem, quando
te encontram; e voltarei a ver, por entre
as sombras, o rosto amado.
Lamento de Orfeu, r etirado do blog do autor
15.3.07
Nuno Júdice

O anjo que se esqueceu de fechar
a porta não irá regressar. Voa no espaço
a que nenhum de nós tem acesso. Só
o bater das suas asas ecoa num recanto
do que somos; e vou buscar esse ritmo
para construir o verso, enquanto pensas
se hás-de fechar a porta, ou deixá-la
aberta, para sempre.
Voo (retirado do blog do autor)
a porta não irá regressar. Voa no espaço
a que nenhum de nós tem acesso. Só
o bater das suas asas ecoa num recanto
do que somos; e vou buscar esse ritmo
para construir o verso, enquanto pensas
se hás-de fechar a porta, ou deixá-la
aberta, para sempre.
Voo (retirado do blog do autor)
15.1.07
Nuno Júdice

A mulher deitada, a mulher que se perdeu,
durante o sonho, e não sabe que o caminho
estava indicado nos seus olhos, procura o vazio
com a mão segura entre lençol e cobertor,
como se nesse intervalo houvesse ainda
uma saída para o desejo. No sono em que
a maré da noite se desfez num impulso
de névoa, os seus lábios murmuraram
o nome que não tem corpo; e em vão
esperaram o beijo que os iria selar,
os dedos que se afundariam no oceano
dos cabelos, a respiração que
lhe daria o ritmo da manhã. Por isso,
a mulher que acorda pede à noite que não
a deixe sozinha, como se o abraço antigo
se pudesse prolongar, ou o sol
não trouxesse o dia para junto dela.
Ausência (retirado do blog do autor)
durante o sonho, e não sabe que o caminho
estava indicado nos seus olhos, procura o vazio
com a mão segura entre lençol e cobertor,
como se nesse intervalo houvesse ainda
uma saída para o desejo. No sono em que
a maré da noite se desfez num impulso
de névoa, os seus lábios murmuraram
o nome que não tem corpo; e em vão
esperaram o beijo que os iria selar,
os dedos que se afundariam no oceano
dos cabelos, a respiração que
lhe daria o ritmo da manhã. Por isso,
a mulher que acorda pede à noite que não
a deixe sozinha, como se o abraço antigo
se pudesse prolongar, ou o sol
não trouxesse o dia para junto dela.
Ausência (retirado do blog do autor)
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