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28.10.11

Ruy Belo




Quem terá deixado esquecida
esta música num canto da rua?
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto - é ela - faltava
no dia de chuva
No meu dia de chuva?
Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em mim não caísse
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva


de Todos os Poemas, Assírio & Alvim
Imagem: Maggie Hasbrouck

7.5.08

Ruy Belo





Mortis Causa-O Testamento de Elvira Sanches

Mulher de gestos dia a dia mais pequenos,
fosses tu qualquer coisa, uma cadeira ao menos
houvesse para ti sempre lugar em tua casa
e não ires um dia assim convencional serena
como papel ou lixo pela escada abaixo

Mulher espremida enquanto deste vida
e resumida à pequenina luz que se liberta
do gesto estritamente necessário linha recta
para anular o espaço entre a mão e a coisa
movimentos dos dias divergentes de outros dias
E tudo vai moendo e remoendo momento a momento
triturando colhendo arrepanhando
face ficta fraca e fixa
a fruta em frente fita, frígida fremente



de BOCA BILINGUE, Editorial Presença, 4ª edição, Lisboa, Abril, 1997
imagem:Marc Riboud
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26.7.07

Ruy Belo



Enterro sob o sol de Monte Abraão

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água


de Obra Poética de Ruy Belo - Transporte no Tempo - vol 2, Editorial Presença, 2ª edição, Lisboa, 1990
imagem:Mariah

26.2.07

Ruy Belo



Excerto de Quero só isso nem isso quero

Quero uma mesa e pão sobre essa mesa
na toalha de linho nódoas de vinho
quero só isso nem isso quero

Quero a casa de terra à minha volta
cães altos na noite a minha mãe mais nova
quero só isso nem isso quero

Quero a casa do forno onde me escondia dos relâmpagos
e trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à
[galinha chocadeira
quero só isso nem isso quero

Quero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no
[natal me punham no sapatinho
e tirar chouriço e toucinho do guarda-comidas
quero só isso nem isso quero

Quero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintal
ver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de
[tijolo
quero só isso nem isso quero

Quero uma aldeia umas pedras um rio
umas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa
[nas pedras
quero só isso nem isso quero

Quero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito
[anos
rasgar essas cartas deixá-las para sempre dentro do tronco oco
[da oliveira
quero só isso nem isso quero

[...]



Poesia de Toda a Terra em Obra Poética de Ruy Belo, vol 2, Editorial Presença, 2ª edição, Lisboa, 1990
imagem:Salih Güler

26.1.07

Ruy Belo



[...]

Quando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude
no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes
onde a água corria pelos vagarosos dias desse tempo
quando os cortesãos nos refeitórios de alto pé direito e telha vã
renovavam as rosas do colar murchas com o calor
antes de cavalgarem toda a noite pelos campos até de madrugada
quando não só as salas mas as vidas não ficavam
de repente vazias de convivas
que temiam olhar uns para os outros e medir nesse olhar as dimensões da solidão
e só sentiam como algum remédio para a solidão
abrir as salas aos nocturnos bois dos campos circundantes
quando de repente os dias começavam a correr
na indisciplinada vibração do perigo
ou se não demoravam na hábil e discreta
sondagem dos menores movimentos dos antigos povos
quando pelos jardins passavam as hirtas e rígidas escravas
quebradas na cintura pelos seus cintos de seda
e era bem mais fácil manter o equilíbrio estival da humidade dos pés
quando os homens se compraziam em falar do vento
a propósito do movimento vivo ou lento dos canaviais
a associar tempo e vento para decretar
que as coisas idas com o vento não regressam mais
quando a prosperidade vinha nessa mansa sujeição aos frutos anuais
e casos de prudência e fortaleza eram minuciosamente inscritos nas crónicas reais
quando os alicerces da alegria se cavavam nesse fumo branco que subia dos altares
e não se dava o nome de humildade à coragem mais íntima
nem o de gratidão ao facto de banir um cortesão qualquer
pois inúmeras vitímas conviviam com os reis
quando o tédio não era em tempos prósperos
a inútil herança de uma antiquíssima experiência
e não havia encontros com as trevas nem desejos
satisfeitos jamais se mais se prolongavam e se renovavam
quando as árvores de ariccia protegiam ainda os sacerdotes de diana
e as pátrias não eram como agora o sítio onde se morre(...)


Excertos de A Margem da Alegria, Obra Poética de Ruy Belo, vol 2, Editorial Presença, 2ª edição, Lisboa, 1990
Imagem:Bartolome Esteban Murillo - Two Women at a Window, ca. 1670