8.9.09

Patrícia Reis



Aquele momento estranho antecede a chegada.
O começo de uma pressão especifica.
O corpo a movimentar-se sem um controlo preciso, as mãos a correr, as costas curvadas, a roupa a prender-se nas coisas, maçanetas, cadeiras, brechas e buracos de vida. Surge uma velocidade originada pelo nada, pelo medo. Talvez.
Há, depois, um barulho nas escadas. O acelerarar de tudo. A porta do elevador, os passos no corredor. Um, dois, três, …sete no total. Passos certeiros, com assinatura, o peso bem dividido entre os joelhos e os pés, os quadris ritmados. Aquele andar como uma voz. Não uma voz qualquer, mas um trovão ameaçador, concreto, gigante.
Ela mergulha no turbilhão misterioso daquele sonho acordado em que vai cair, cair. E não tem asas, não é anjo, não é pássaro, não é nada.
Tenta organizar as ideias, alinha-las numa ordem que possa parecer normal, dentro do padrão de vida dos outros. É uma bitola como outra qualquer. Dá-lhe uma fronteira de razoabilidade e, por causa disso, torna-se melhor, agiganta-se na miséria, aguenta-se.
Segue-se então um aperto. Devagar, no estômago, como uma ligeira indisposição, a dor é uma escalada em vertigem. Sente o corpo a pedir para se dobrar, um esgar. Mantém-se direita. Pensa: “É apenas quase dor”. Tudo se passa dentro de contornos ridículos, abstractos, absolutos.
A apoteose do sofrimento concentra-se então na garganta.
Consegue ouvir o bater do coração. São já múltiplos corações, um músculo elástico que se transformou em diferentes órgãos dominadores. É uma coisa animal.
O som ensurdece: uma banda que bombeia o poder do sangue veloz nas veias e, nesse instante, chega o odor intenso a suor. As axilas a exalar todas as vísceras primitivas de sermos apenas carne e coisas tenebrosas; um fio de água a escorrer, desastrado, no vale dos seios.
A banalidade do medo envergonha-a. Tem a certeza de que podia ter sido outra: enfermeira, diligente empregada de escritório, auxiliar numa creche. Resta-lhe apenas um sentimento de vergonha por ser quem é, por estar onde está e, no fim, por ele, a presença dele e tudo o que daí vem. Prevendo o pior – ainda na esperança do melhor – ela deixa-se estar de costas para a porta. Está na cozinha, barriga húmida da água do lavatório.
Cheira-se.
O medo cheira-se, tinham-lhe dito em pequena quando se desviava dos cães vadios. Pondera nas duas hipóteses clássicas que compõem o filme: ou ele chega, bem disposto, a mão na porta do frigorífico e uma frase qualquer, desgarrada, como se estivessem a falar há muito; ou a mão no frigorífico e o gelo a romper o silêncio no copo alto.
Um novo aperto, uma quase morte. Percebe que o seu cheiro é um odor amargo que se mistura com os cozinhados, o lume sempre a ferver, cenouras, batatas, feijão verde, manchas de azeite, sal e noz-moscada. Não faz nada sem uma pitada de noz moscada. Aprendeu com a mãe. É um ritual que lhe permite prestar homenagem diária à mãe. Uma mulher pequena, persistente e rija. É o melhor adjectivo que encontra: rija. O suor da mãe não tinha cheiro. Ou ela não tinha medo.
Todas estas coisa correm-lhe, velozes, na mente atormentada, são segundos que definem o inicio da noite. Pensamentos atropelando-se descontrolados na cabeça dela como riscos ao acaso num papel qualquer, rabiscos que não formam uma ideia concreta. Tem uma tontura. Uma coisa ligeira. Há pensamentos que não consegue terminar.
Parece-lhe, por momentos, que tudo se reduz a um conjunto de manchas pesadas que alastram pela casa, propagando-se a aflição no peito, o bater do coração descompassado, deslocado, a meio do pescoço, prestes a deixar o corpo.
O medo dela arrasta-se pelo soalho. É um rio dentro de casa. Se o coração não estivesse preso, embrulhado nas cordas vocais e na traqueia, talvez conseguisse gritar. Um grito por ela, de terror por aguentar, de aviso, de guerra. Mas assim. Interdita. As mãos na água, as pulsações a contabilizar o medo e o medo a dominar tudo.
Ela sabe coisas: como o facto da traqueia ter dez centímetros ou que a aliança se coloca no dedo anelar da mão esquerda, porque em tempos se acreditou que havia um musculo fino que prendia o dedo ao coração. Ela sabe atar os tomates ao Diabo para encontrar coisas perdidas. Só precisa de um lenço de pano quadrado; ata-lhe as quatro pontas com força e convicção e diz alto: “Atei os tomates ao Diabo e só os desato quando achar as chaves, os papéis da segurança social, botão de esmalte verde garrafa…” Pega no lenço amarrado e coloca-o debaixo da perna de um móvel pesado. Para que possa doer e essa dor possa motivar o Diabo a procurar o que desapareceu.
Ela sabe que isto funciona.
A sua mãe fazia-o sem cerimónias. A sua avó, a sua bisavó também. Perdeu-se a origem deste ritual. Pouco importa agora. Só funciona com objectos, coisas inanimadas. Esta premissa é peremptória. Infligir dor ao Diabo não é apropriado para encontrar outras coisas; amor, paz, alegria, dinheiro, coragem.

[…]

Já o dizia a mãe. Sábia mãe. Que Deus a guarde. Guardará? Será que lhe perdoou o ter-se perdido em certezas sem concretizar nada que fosse digno de nota? A mãe e as regras definidas para tudo, regras que dão (darão?) estabilidade, certeza, educação e cultura.
O marido é diferente. Não julga nada porque a vida não lhe ensinou isso. Ensinou-lhe as coisas básicas da sobrevivência: o trabalho é para trabalhar. Um homem não se deixa. É melhor não fazer um rol de coisas. Se não as nomear, as brechas desaparecem.
Nada de listas de queixas. A própria palavra – queixa – isolou-se no vocabulário, está silenciosa e quieta, sem estatuto ou vida. Há outras coisas a ponderar. Não é preciso entender o papel dela na cozinha a empestar o planeta com o seu cheiro azedo, enquanto ouve e percebe que a chegada do marido está iminente. Não é preciso porque não serve de nada.
Um homem fuma e bebe, não chora nem pede. Paga as contas e verifica o dinheiro. Fecha a porta da casa de banho. Sempre. Compra roupa uma vez por ano. Usa o mesmo tipo de sapatos. Arranja as coisas em casa. Ela procura não pensar em cenários alternativos. Nada de sonhos, nada de fantasias.

Larga essa revistas, que porra! Quem manda ler esses livros? só gastas dinheiro em merdas.

Ela sonha com as extensões de cabelo da apresentadora do concurso da televisão; sente as dores da outra que foi trocada pelo marido seis meses depois de um casamento majestoso numa quinta qualquer; comove-se com o nascimento da filha da top-model; tenta imitar a actriz da telenovela da noite; gostaria de vestir, uma vez que fosse, uma peça de lingerie de seda muito fina. Tudo isto acontece na sua cabeça antes de fazer o jantar, as revistas escondidas do olhar dele.
A mesa está posta e ele arrasta-se com o copo na mão até ao sofá gasto. Ela atreve-se:

Um dia vou mudar de sofá.
Nem penses, este já tem o buraco do meu cu.


São coisas assim. Agressões que a limitam, a aprisionam, a desfiguram, a destroem com enorme eficácia.
Ele torna-a num conjunto de coisas sem nome.
Ela sabe tudo isso e sabe ainda mais quando vê as horas a passar, horas torturadas por telenovelas que se repetem, os mesmos rostos, as mesmas vozes. O roncar do álcool no sofá.

[…]



Fúria em O Prazer da Leitura, edição conjunta de FNAC e Teorema publicado por ocasião do dia Mundial do Livro, 23 de Abril de 2009 Imagem: Peter Velter

2 comentários:

Anónimo disse...

M.M, uma abraço APERTADíssimo! Respirável.





blue

nadir disse...

outro para tu, grande, grande

m.m.