19.11.09

Rui Pires Cabral



A noite em que nos sentámos no muro
entre os quintais. O mundo estava aninhado
sob o tecto dos teus sentidos, recuava
à posição pouco óbvia
de um jardim.

Vinhas com o tempo certo sobre
as silvas, já punhas o amor a arder
nos canteiros. Não valia a pena explicar
uma coisa tão rara.



big night de Música Antológica & Onze Cidades, Editorial Presença
Imagem: Barbara Cole

Vasco Gato



Não apagues a tua boca agora. Quero desenhar-me rosa-dos-
__-ventos na vela do teu peito e sairmos de olhos fechados
__para a aventura sem âncoras de circum-navegação terrestre.

Neste quarto, as mãos perdem a razão. Neste quarto, as mãos
__são meramente mãos. Não apagues a tua boca agora.

É quente a noite dos nossos corpos. Por isso dormimos sobre
__a água. Por isso nos evaporamos como se uma canção an-
__tiga. Por isso a terra inteira.



32 de A prisão e paixão de Egon Schiele, &etc, 2005
Imagem: Tomohide Ikeya

4.11.09

Manuel de Freitas




Apagam-se com vagar na impiedade do tempo.
Ouço o seu clamor enfraquecido, um gemido impotente
a que em breve ninguém se poderá converter.
Eram os únicos lugares onde sabia estar.
Sem obviamente saber estar, visto a imperícia
me ser tão sanguínea – excepto quando por teimosia
roçava a mais feroz inconsciência e nada então
importava. Mas foi sempre mais frequente ter
de prémio uma excessiva consciência de tudo, da
inexorável tristeza de tudo, embora ali agraciada
com um encanto cáustico:
a possibilidade de reivindicar um inferno.

A pouco e pouco morrem as portas largas
de ruas estreitas que, à parte outros méritos, ensinavam
com mestria o abandono e a eternidade da sede.
Tive a má sorte de serem meus estes anos que de algum
modo testemunham a despedida dos últimos exílios,
desses redutos sombrios onde se podia renegar
a luz perversa do mundo.

Abuso mais uma e outra vez os pequenos templos
que perduram. Aproveito como posso a demora
da sentença, mas sei próximo o dia, a furibunda
manhã em que se apagarão de vez os fogos
em que mais apetecia ser lentamente devorado.



O crepúsculo das tabernas de Todos contentes e eu também, Campo das Letras, 2000
Imagem:António J. S.

A ARTE da ILUSTRAÇÃO por Evelina Oliveira


Helena Figueiredo




Contigo,
Rebolo na erva dos prados,
Abraçando o sol ao meio dia.
Não importa a língua que falo,
Ou se a noite já baixou.
Canto árias,
Danço tangos e boleros
Pela terra acabada de lavrar.
Enfio-me nas florestas,
E brinco às escondidas com o lobo mau.

Contigo,
Como amoras silvestres,
E sujo a boca no sumo das laranjas.
Monto cavalos de espuma.
Cubro-me de lama
E banho-me em ribeiros cristalinos.
Ando descalça pelos campos de searas,
E peço à chuva que me molhe,
E às estrelas que mudem de lugar.

Contigo,
Galgo montanhas
E sei de cor o nome das nuvens.
Atravesso tempestades e vendavais
E adormeço numa cama de musgo.
Deito-me nua ao luar,
E gozo o frio das geadas.
Contigo,
Acendo fogueiras no deserto,
E toco uma balada para o vento.

Contigo,
Sou um pássaro com asas a crescer.


Liberdade de Ao sabor da pele, 2009
imagem: Tomas Rücker

28.10.09

Paulo Teixeira



Se uma fonte jorrasse da minha boca
a saciar a memória das sedes terrestres,
uma arvore erguendo a lentidão dos seus braços
no ar, no céu sarado pela luz, um feixe
de mãos gesticulando contra o vento
a placidez de uma vida intocável.

Pudesse a sua sombra ser uma despedida
guiando os passos de quem deserta com o dia,
a cabeça deitada por terra, vendo passar
no alto a cabeleira de uma nuvem sobre a vastidão
dos campos que se perdem em núpcias com a distancia.

Saborear o ar que nos sopra como uma lembrança
sobre o flanco das colinas, ele que, ao levar consigo
um adereço de imagens, colhe no voo uma espiga,
a sua germinação breve na agua fértil da boca.
Palavras para descrever a noite infusa entre as mãos,
a vocação do que brilha no alto e se espelha,
o açafate da lua, na lira muda da folhagem.

Queriam ver-te dobrada para o solo, olhos fechados,
cruzamento de ramos sob o metal branco da luz,
no gesto inútil que faz ao cair uma folha fanada.
Porque o teu destino é cair, sacudindo o corpo
como quem treme de medo, de frio, ou faz uma adeus,
sabendo que trazes em ti a tua morte, a sede
que vai haurindo em baixo, sem descendência
ou cadastro de bens senhorias, as raízes do teu ser.


Árvore de Inventário e despedida, Lisboa, Editorial Caminho, 1991
Imagem: Airi Pung

Nuno Júdice - dia Mundial da Poesia, 22 de Março de 2009.



23.10.09

Paulo Tunhas



Nada o silêncio da manhã perturbava
nos velhos lugares que da antiga casa
eram a parte mais distante. Distintas torres,
que ao longe pareciam quase intactas,
de perto arruinadas se viam e cobertas
das plantas todas que até ali pudessem chegar.

Parecia que às antigas lajes música mais antiga
se havia sobreposto e que era essa, assim, a mais visível:
podia-a tocar quem, atento à natureza, por ali caminhasse
cuidado e silencioso; era também silêncio, mais secreta
conciliação do silêncio consigo mesmo.

Tão estranha música, como aos meus ouvidos
não poderia chegar? Pois o invisível, que a todos toca,
nesse dia eu vi-o realmente.



A Torre Iluminada, Quatro Elementos Editores, 1983
IMAGEM: B READ

9.10.09

Eduardo Bettencourt Pinto



Diz que me amas como uma pétala que cai,
que foste a palmeira branca
de todas as coisas impossíveis,
a claridade que atravessa o mais longo oceano do Outono,
nas esplanadas das cidades que se esgotam no Tempo
onde me vês, escondido entre palavras mudas,
esgravatando a música de insondáveis rumores,
e que apesar de tudo me encontras como sou, descalço
entre pombas e magnólias, o mar do Verão nas mãos trémulas,
e o teu nome a crescer na minha boca como uma rosa,
cintilante e cheia de poesia.




Nos campos onde moram os ventos dos teus olhos retirado do site do autor
Imagem: Emilia Castañeda

Sofia Escobar

Herta Müller - Prémio Nobel da Literatura 2009

Nobel da Literatura 2009 - Herta Müller

(romancista alemã nascida na Roménia em 1953)




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Café com Letras - Júlio Pomar



A Biblioteca Municipal de Oeiras convida-nos, dia 28 de Outubro pelas 21h30, para bebermos um café no “Café com Letras” enquanto podemos conversar com Júlio Pomar, um dos mais reputados e reconhecidos artistas portugueses da actualidade.


2.10.09

Fernando Rente





Longínquo rio
água do mar

procuro-te
sigo tuas margens
uma incerta barca
entrando no mar
perde os tímidos limites do rio




de Poemas 1976*1996, Campo de Letras
Imagem: Pierre Dumas

Eduardo Alarcaão - Pintura


25.9.09

Mário-Henrique Leiria



V


Eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como uma ponte de velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos


O Surrealismo na Poesia Portuguesa, Frenesi, 2002
Imagem:Andrzej Malinowski