18.9.09

Fernando Dinis



Da carta que não chegou às tuas mãos, ficou um passado memorável. Nela constavam os pequenos episódios que vivemos juntos. Rasguei-a junto ao rio, fiquei a olhar os pedaços de papel serem absorvidos pelas águas turvas. A tentativa de apagar finalmente o nosso passado. Dirias que não havia necessidade, dirias que o que vivêramos não valia assim tanto, nem mesmo três folhas escritas com o coração nas mãos, a arder. Eu sorriria diante de ti como alguém que morresse. Despiria as roupas e laçar-me-ia na corrente fria. Tentaria recuperar o que conseguisse, pedaço a pedaço, até afogar-me de vez. Só existem duas razões para mexer numa ferida. Curá.la, ou abri-la ainda mais.



(Memória) de Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, Exudus
Imagem: Rossy Topalova

2 comentários:

Anónimo disse...

É, m.m., para mim também só há um tipo de amor: é quando se gosta mesmo!

Aquelas variantes "do gosta à sua maneira", só servem a quem não gosta de facto.

Vou tentar recuperar o que conseguir, pedaço a pedaço...

Abraço mergulhado,

blue

nadir disse...

assino por baixo bluínha, como sempre.


abraço grande

m.m.